A névoa rastejava sobre Baker Street como um gato velho e silencioso naquela manhã em que o telegrama chegou. Eu, John H. Watson, examinava um caso de febre baixa quando Mrs. Hudson abriu a porta com a discrição de sempre e depositou sobre a mesa de Holmes um envelope amarelado, marcado por uma tinta que parecera secar às pressas. Ele não levantou os olhos de seu violino; tocava uma melodia curta, obsessiva, que repetia como se quisesse desatar um nó.
— Telegrama, senhor Holmes. Da parte de uma dama — disse Mrs. Hudson.
Holmes deixou que a última nota morresse, prendeu o arco no queixo e, com a outra mão, rasgou o selo. Eu me aproximei, movido por aquele tipo de curiosidade que meu amigo instilava em quem quer que respirasse no mesmo cômodo que ele.
— “Meu espelho fala e sangra.” — leu Holmes, numa voz seca que só não se tornava zombeteira por um traço de sincera atenção. — Assinado: Lady Blackwood. Endereço: Blackwood Hall, Hampstead. “Venha hoje. O reflexo sorriu.”
— Histérica, sem dúvida — arrisquei. — Ou vítima de algum charlatão espiritualista, como tantos que infestam nossas noites londrinas.
Holmes apoiou o bilhete contra a luz da janela, observou o grão do papel, aspirou o odor com um breve cerrar de pálpebras e voltou a cabeça levemente na minha direção.
— Papel de algodão, fibras longas, importado. O perfume é de lavanda real, não uma imitação barata. A caligrafia tem dois ritmos: o início firme, aristocrático, o final trêmulo, talvez por pressa, talvez por medo. — Dobrou o papel. — Uma histérica rica é ainda assim um caso, Watson; um caso que paga as contas. Mas “sangra” é verbo que exige explicações.
— Se é que houve sangue, — repliquei. — Espelhos se quebram, dedos se cortam. Superstição faz o resto.
Holmes pousou o violino com delicadeza, como quem depunha uma arma carregada.
— Superstição é a ciência sem método. E, às vezes, o método começa onde a superstição tropeça. Vista o casaco. A manhã pede niebla, lenço e paciência.
Em menos de meia hora, descíamos a escada e, pouco depois, um cabriolê nos levava por ruas de tijolos úmidos, lojas sonolentas e lampiões pálidos. O frio nos mordia as orelhas; Holmes, recolhido em seu sobretudo, mantinha os olhos fixos num ponto inexistente, onde creio que desenhava mentalmente as possibilidades do caso. Do bolso interno, de tempos em tempos, retirava o telegrama, como se o peso das quatro palavras lhe reorientasse o pensamento.
— “Fala e sangra” — repetiu. — Duas propriedades que, em tese, não pertencem a um espelho, salvo por metáfora. Se não é metáfora, é truque; se não é truque, ou nos enganam ou há algo que nenhum de nós, homens de carne e cálculo, domina plenamente.
— E se for apenas uma questão de ângulo? — perguntei. — Há efeitos de luz que…
— Não há luz que faça uma caligrafia tremer, Watson. E a palavra “sorriu” não é aleatória. Sorrir é um ato humano. Quando um paciente diz que uma janela se abre sozinha, investigo o vento. Quando diz que a janela o olhou, investigo o paciente — e quem tenta olhar por ele.
Hampstead surgia como um respiro acima da fuligem, com seus jardins disciplinados, suas fachadas austeras e a insolência discreta dos ricos. Blackwood Hall aguardava-nos por trás de um portão de ferro trabalhado, cuja pintura descascada nos informava que, ali, a herança era mais antiga que o zelo. A casa tinha quatro andares, um sótão e uma fila de janelas altas que pareciam assistir a tudo com tédio.
O mordomo recebeu-nos no átrio. Era um homem alto, esguio, de rosto pálido demais, como se o sangue recusasse certas regiões de sua pele. Notei sua mão direita coberta por uma luva fina, apesar de estarmos dentro.
— Henry, ao seu dispor. Lady Blackwood pediu que viessem com urgência. Esteve… abalada.
— Abalada — repetiu Holmes — é palavra que serve de abrigo a muitas tempestades. Conduza-nos a ela.
O corredor principal devolvia nossos passos com uma ressonância oca. Quadros cobertos por lençóis brancos formavam fantasmas imóveis, e o ar tinha o cheiro de madeira encerada e velas apagadas. Henry abriu uma porta dupla e anunciando-nos em tom baixo.
Lady Blackwood estava de pé, junto à lareira, como se o fogo apagado ainda lhe aquecesse as mãos. Era jovem para o título, talvez trinta e poucos anos, de beleza altiva e olhar cansado. Ao nos ver, recolheu os ombros como quem cede um peso.
— Senhor Holmes… Doutor Watson. Perdoem o telegrama brusco. Eu… não dormi.
— Não dormiremos também, se o assunto nos merecer — disse Holmes, curvando-se. — Conte-nos, milady, com o máximo de precisão e o mínimo de adjetivos.
Ela sorriu sem humor.
— Preciso que acredite naquilo que, eu mesma, não teria acreditado ontem. Venham.
Conduziu-nos ao andar superior, ao quarto principal. Era amplo, com cortinas pesadas, uma cama de dossel e um tapete oriental cujos desenhos lembrei vagamente ter visto em um antiquário da Fleet Street. O espelho estava na parede oposta às janelas: oval, moldura de madeira escura entalhada em motivos de folhas e pequenos rostos. A superfície, polida como água em repouso, devolvia-nos em repetição infinita.
— Às vezes, — começou Lady Blackwood, com voz baixa — ele fala. Nem sempre com palavras. Às vezes… eu me vejo mais velha. Outras, não me vejo. Ontem, vi… — respirou fundo. — Vi meu marido.
Holmes não moveu um músculo.
— Seu marido está morto há quanto tempo, milady?
— Dois anos e quatro meses.
— E ontem ele sorriu?
— Não sei. A imagem não era nítida. Mas o espelho… — Hesitou. — O espelho sangrou.
Eu pigarreei, incapaz de manter minha ciência cética calada.
— Os espelhos não sangram, Lady Blackwood. Podem ferir quem os toca. Talvez a senhora…
Ela ergueu um lenço bordado, manchado de um vermelho escuro.
— Se foi minha imaginação, doutor, ela tem gosto de ferro.
Holmes aproximou-se do espelho com um respeito que não vi nem diante de pistolas carregadas. Tirou do bolso uma lupa e um pequeno estojo de couro que continha, entre outras minúcias, um frasco com algodão e uma lâmina. Passou os dedos, sem tocar, a uma polegada da superfície. Depois, inclinou-se, avaliando a moldura. O entalhe mostrava desgaste em pontos específicos, como se dedos nervosos o tivessem apertado repetidas vezes.
— Henry, — disse sem virar o rosto — alguma vez o senhor tentou mover este espelho?
O mordomo vacilou.
— A patroa pediu para cobri-lo certa feita. Eu… tentei. É pesado. Machuquei a mão. Nada grave.
Holmes voltou-se, o olhar pousando por um segundo a mais na luva do homem.
— E por que a luva hoje?
Henry sorriu de modo quase apologético.
— Vaidade, senhor. Uma queimadura ridícula.
— Queimadura fria, eu diria — murmurou Holmes. — Notei a coloração. É como se tivesse tocado gelo durante tempo demais. Gelo… ou mercúrio.
Lady Blackwood estremeceu.
— Mercúrio?
— Sim, milady. Muitos espelhos antigos foram feitos com prata e mercúrio. Uma combinação comum e perigosa. Não é de espantar que, ao longo dos séculos, se lhes atribuíssem propriedades malditas quando, na verdade, afetavam apenas a saúde de quem os fabricava ou limpava.
— Então é só isso? — A esperança na voz dela era quase infantil.
Holmes aproximou o algodão de um ponto na moldura, recolhendo um resíduo escuro que eu, com um olhar treinado de médico, reconheci sem dificuldade.
— Infelizmente, não. Isto é sangue, fresco de menos de vinte e quatro horas. — Ele ergueu o frasco, deixou-o apanhar um feixe de luz mortiça. — E aqui, vejam, um fio. Loiro, longo. Não me parece da senhora, Lady Blackwood.
— Eleanor — sussurrou ela, quase sem som.
— Quem é Eleanor? — perguntei.
A dama fechou os olhos por um instante, como quem se prepara para confessar um pecado.
— Minha filha. Não oficialmente. Está sob os cuidados de um orfanato. Eu… não a vejo há meses. Mas ela conhece esta casa. Conhece… o espelho. O pai dela… — deteve-se, e a palavra “pai” pareceu pesar-lhe na língua.
Holmes guardou o frasco e a lâmina. Aproximou-se do vidro até que seu próprio nariz quase tocasse a superfície. Eu o vi, ao meu lado no reflexo, com um atraso de frações de segundo. Não posso jurar por isso — e temo a zombaria dos vivos tanto quanto a visita dos mortos —, mas creio que o reflexo de Holmes piscou antes de Holmes piscar.
— Curioso — disse, recuando. — Há anomalias no reflexo. Pequenas, mas insistentes. Sra. Blackwood, — voltou-se para ela — a senhora ouviu exatamente o quê?
— Uma voz de homem, do outro lado. Não sei se era dele… do meu marido. Ouvi meu nome. Ouvi… “venha”.
— Ecos da memória, — comentei, — ou truques de um médium. A senhora tem recebido visitantes noturnos? Sessões, lanternas, panos pretos?
— Nada disso, doutor. Eu… tenho medo de charlatães.
Holmes cruzou as mãos à frente do peito, como fazia quando uma linha de raciocínio chegava a um cruzamento. Seus olhos vagaram pelo quarto: cortinas, tapete, a mesinha com um vaso de flores secas, a porta entreaberta do guarda-roupa, as marcas de arrasto no rodapé.
— O espelho, Lady Blackwood, não fala. Quem fala são as pessoas em torno dele — vivas ou mortas. — Ele apontou para a moldura. — E quem sangra também são as pessoas. Não gosto de dizer isso, mas temo que seu espelho seja, neste momento, menos um objeto maldito do que uma cena de crime.
Ela levou a mão ao peito.
— Crime? Aqui?
— Sangue fresco, marcas de arrasto, um fio de cabelo, um mordomo de luva numa manhã sem cerimônias… — Holmes virou-se para Henry. — O senhor se importa de remover a luva?
Henry engoliu em seco, mas obedeceu. A mão mostrava uma mancha esbranquiçada no dorso e um corte irregular na base do polegar, já cicatrizando.
— Cortei-me no… no entalhe, senhor. No dia em que a senhora pediu para cobrir o espelho.
— E foi ontem que cobriu?
— Sim, senhor.
Holmes não disse nada por alguns segundos. Airava no quarto um silêncio que não era vazio, antes cheio de coisas que não ousávamos nomear.
— Watson, — disse por fim, com aquela serenidade que anunciava trabalho — faremos duas coisas. Primeiro, examinaremos o porão e qualquer aposento onde haja outros espelhos. Segundo, visitaremos o orfanato de St. Alban. Se Eleanor conhece a casa, talvez a casa a conheça também.
— Acha que a menina esteve aqui? — perguntei.
— Acho que um espelho não escreve nomes no próprio vidro. — Ele se voltou à dama, amolecendo a voz. — Milady, se alguém a assustou por trás de um reflexo, prometo encontrar a mão que segurou essa máscara.
A Lady assentiu, segurando firme o lenço manchado, como quem segura uma bandeira.
Ao deixarmos o quarto, tive a impressão — não posso chamá-la de certeza sem corromper meu respeito pelos fatos — de que a superfície do espelho ondulou, muito levemente, como água que recebe a gota de um tempo diferente. E, por um instante breve demais para caber numa frase, vi meu próprio rosto, no reflexo, mourejar uma expressão que eu não fazia: um sorriso fino, quase cortante, que não reconheci em mim.
No corredor, Holmes caminhava depressa, a cabeça levemente inclinada, como quem ouve um sussurro que os outros não ouvem.
— “Meu espelho fala e sangra” — repetiu. — Pois que fale mais um pouco, Watson. E, se tiver sangue, seguirá deixando um rastro.
— Ainda crê na hipótese de truque?
— Creio na hipótese de verdade. E a verdade, meu caro, raramente se dá inteira à primeira vista. É preciso quebrar a superfície.
Descemos as escadas. A casa, silenciosa, parecia conter a respiração. Lá fora, a névoa apertava as grades do jardim como dedos pálidos. E eu, que tantas vezes acompanhei Holmes a lugares onde a razão reina absoluta, dei por mim apertando o cabo da bengala com mais força do que o necessário.
— Ao porão, — disse ele. — Depois, a St. Alban. O dia mal começou, e já nos observam de dois lados.
— Dois lados? — perguntei.
— O nosso — e o de dentro do vidro.
O porão de Blackwood Hall exalava aquele frio antigo que não vem do inverno, mas de lugares que desaprenderam a ser visitados. As tábuas gemiam sob nossos passos e a lanterna que eu carregava projetava círculos de luz trêmulos sobre as paredes úmidas. Holmes ia à frente, o sobretudo arrastando-se como uma sombra que caminhava sozinha.
— As casas guardam lembranças, Watson — murmurou ele. — E algumas aprendem a repeti-las.
— Repeti-las?
— Ecos. Não apenas sonoros. Certas residências registram o que nelas ocorreu com a mesma fidelidade que um fonógrafo, mas em outra linguagem. Quando a mente humana é instável, interpreta esses ecos como fantasmas. Quando é curiosa, como um caso.
Descemos mais dois degraus. O cheiro de poeira e ferro oxidado ficou mais forte. Havia caixas empilhadas, móveis cobertos de panos, e no canto, algo que brilhava fracamente: um fragmento de espelho encostado à parede, sujo e ainda assim reluzente como olho aberto no escuro.
Holmes ajoelhou-se e soprou o pó.
— Parte do mesmo conjunto — murmurou. — Veja a borda: o entalhe é idêntico ao do quarto da Lady. O que faz aqui embaixo?
— Pode ser um pedaço do espelho quebrado — sugeri. — Ou sobressalente.
Ele riu baixo, sem alegria.
— Em Londres, até as damas possuem espelhos de reposto, mas não de alma. — Passou o dedo rente à superfície. — Curioso. Nenhum reflexo.
— Nenhum?
Aproximei a lanterna e, por um instante, vi apenas o feixe de luz perder-se na escuridão. O vidro não devolvia imagem alguma — nem minha, nem a dele.
— Um espelho que não reflete — disse Holmes, quase com deleite. — É a coisa mais perturbadora que já vi, e olha que já vi cadáveres sorrirem.
Tocou o vidro com a ponta da bengala. O som que ecoou não foi o estalo do cristal, mas algo oco, distante, como um trovão sob a terra.
— Watson, — disse, — isso não é vidro. É porta.
Antes que eu pudesse responder, um ruído atrás de nós: passos leves, hesitantes, subindo as escadas. Apontamos as lanternas, e Henry, o mordomo, surgiu à meia-luz, pálido, o olhar perdido.
— Milorde — disse, confuso, — não deviam estar aqui embaixo. A senhora...
Holmes o interrompeu:
— Lady Blackwood? O que ela fez?
— Mandou cobrir todos os espelhos da casa. Diz que as vozes voltaram.
Holmes endireitou-se.
— Excelentes medidas, se o inimigo usa reflexos. — Fitou Henry com atenção cortante. — Diga-me, Henry, quando foi a última vez que o senhor ouviu uma voz… que não fosse sua?
O mordomo hesitou, e o silêncio que se seguiu foi quase uma resposta.
— Ontem à noite — murmurou. — No corredor. Pensei que era a senhora, mas… vinha do espelho.
— E o que disse?
— Só meu nome. Uma vez. Mas era... — ele se deteve, apertando a têmpora. — Era eu mesmo dizendo.
Holmes virou-se para mim.
— Percebe, Watson? O caso não é de audição, mas de repetição. O reflexo devolve o som assim como a imagem. Só que fora de tempo.
— Fora de tempo?
— O eco do futuro, se preferir. Um espelho que repete antes do acontecido. — Ele voltou-se a Henry. — Suba e diga à sua patroa que não toque em nenhum espelho até eu mandar. E tranque as janelas. Todas.
Henry subiu apressado, tropeçando nos degraus. Quando o som dos passos desapareceu, Holmes se aproximou de uma das colunas do porão e retirou algo do bolso — um pequeno frasco contendo pó branco.
— Cloreto de amônio — explicou. — Reage ao calor humano. Se há algo… vivo… do outro lado, este pó nos dirá.
Espalhou o conteúdo sobre o espelho mudo. Por um momento, nada aconteceu. Depois, o pó começou a se mover — lentamente, formando linhas sinuosas, como se um dedo invisível o empurrasse do outro lado.
Formou-se uma palavra:ELEANOR.
— A menina — murmurei.
— Ou quem fala por ela — respondeu Holmes. — Anote, Watson. O espelho responde, mas ainda não pergunta. Isso é sintoma de vontade unilateral. O perigo é quando começa a dialogar.
O pó se dissipou de repente, e o reflexo apareceu — nós dois, imóveis, mas com uma diferença: o Holmes do espelho mantinha os lábios entreabertos, como se pronunciasse algo. A luz da lanterna vacilou.
— Está falando — sussurrei. — Consegue ouvir?
Holmes assentiu, concentrado. Pôs o ouvido quase contra o vidro.Eu, dominado por um terror que só a curiosidade disfarça, imitei o gesto.
Uma voz fraca, distante, sussurrava:
“Volte ao quarto... ele sangrou de novo.”
Holmes recuou, olhos estreitos.
— Ao quarto, Watson. Depressa.
Subimos. A casa parecia respirar conosco — rangia, suspirava, tremia. Quando entramos no quarto da Lady, ela estava de joelhos diante do espelho principal, que agora apresentava uma rachadura profunda do centro à base. As cortinas se moviam sem vento.
— Não toque! — gritou Holmes, correndo. — Afaste-se!
Lady Blackwood virou-se, lágrimas marcando-lhe o rosto.
— Ele... falou de novo. Disse que estava preso. Que precisava de sangue para voltar.
Watson, examine o chão — ordenou Holmes. — Há sangue mesmo?
Havia. Gotas pequenas, vermelhas, junto à moldura. Mas nenhuma ferida aparente nela.
— Não é dela, Holmes. Está seco demais. — Observei a cor. — Quase negro.
— O mesmo tipo do porão — disse ele. — O espelho alimenta-se da própria lembrança.
A Lady chorava, repetindo: “Ele está preso... ele está preso...”
Holmes manteve a voz calma, mas fria:
— Milady, o espelho não prende homens. Prende ideias. E alguém o ensinou a fazer isso.
Aproximou-se novamente do vidro, examinando a rachadura. Então retirou o lenço e limpou o centro. No ponto exato onde o sangue se acumulava, havia uma inscrição quase invisível, gravada na prata: S.R.
Holmes empalideceu.— A mesma marca do diário de seu marido — disse. — Society of Reflections.
— Meu marido era... um estudioso. Falava de luz e sombras. — Ela olhou para o espelho com desespero. — Disse que encontraria a fronteira entre ambos.
Holmes respirou fundo.
— E parece tê-la encontrado. — Virou-se para mim. — Watson, lembre-se do nome, registre tudo. Isso não termina nesta casa.
O espelho vibrou — um som surdo, grave, como se algo o golpeasse por dentro. Lady Blackwood gritou, e todos os outros espelhos do quarto — pequenos, de maquiagem, de moldura — começaram a estalar um por um, como se tivessem tomado susto.
— Watson, cubra o espelho principal — ordenou Holmes. — Agora!
Peguei o lençol mais próximo e lancei-o sobre a superfície reluzente. O som cessou instantaneamente. O silêncio, contudo, era pior. Sentia-se o ar pesado, elétrico.
Holmes retirou o cachimbo, acendeu-o com calma estudada, e, entre duas tragadas, disse:
— A casa é um organismo, Watson. Esteve adormecido por anos, e agora alguém o despertou. E a cada reflexo quebrado, abre-se outro.
— Outro o quê?
— Outro caso — respondeu, fitando o lençol que ainda tremia levemente. — Ou talvez... outro mundo.
A noite seguinte instalou-se sobre Londres como um lençol de fumaça e gelo.Holmes decidira permanecer em Blackwood Hall, alegando que “o melhor modo de compreender um eco é escutá-lo onde nasce”. Eu, menos convicto e mais humano, protestei em silêncio. A casa parecia viva — uma criatura de madeira e vidro, esperando que baixássemos a guarda para respirar.
Holmes havia transformado o salão principal em laboratório improvisado.Mapas, lâmpadas a óleo, tubos de ensaio, folhas de anotações.No centro, sobre uma mesa, o espelho coberto com o lençol branco.À medida que a noite avançava, o pano movia-se sutilmente, como se respirasse.
— A senhora pode descansar, Lady Blackwood — disse Holmes. — O quarto será vigiado.Watson e eu nos revezaremos. Nenhum espelho deve permanecer descoberto.E quanto a Henry... mantenha-o distante.
A Lady apenas assentiu, pálida.Quando ela se retirou, Holmes acendeu um lampião menor e começou a examinar o chão, centímetro por centímetro.
— O senhor realmente acredita que há algo vivo aí? — perguntei.
— Vivo, não. — Holmes ajustou a lupa. — Mas há movimento.E movimento sem causa é, por definição, o nascimento de um mistério.
Afastei a cortina e observei o jardim. A lua, filtrada pela névoa, lançava reflexos débeis sobre o lago.Por um instante, achei ver alguém caminhando junto às árvores — uma silhueta de mulher, cabelos claros, arrastando um vestido.Eleanor?Pisquei, e a imagem se desfez.
— Holmes, olhe aquilo! — apontei.
Mas quando ele ergueu o olhar, nada havia senão o balançar das folhas.
— Viu a menina? — perguntou, sem surpresa.
— Talvez tenha imaginado.
— Talvez não. A imaginação é o único reflexo que não mente.Feche as cortinas. Se ela quiser entrar, encontrará outro caminho.
Holmes voltou à mesa, retirou o lençol do espelho e acendeu uma vela diante dele.O vidro estava agora rachado em duas linhas diagonais que se cruzavam no centro, formando uma espécie de cruz irregular.Entre as fissuras, o mercúrio parecia se mover como líquido vivo.
— Observe, Watson. Veja bem.
A chama da vela tremeluzia, refletida no vidro.Mas logo percebi — havia duas chamas, não uma.A segunda dançava num ritmo diferente, mais lento, quase preguiçoso.Era o reflexo de algo que aconteceria um segundo depois.
Holmes falou baixo, hipnotizado:
— O espelho não reflete o presente. Reflete... o instante seguinte.
— Isso é impossível, Holmes.— Justamente. — Ele sorriu de lado. — Por isso é tão fascinante.
A vela caiu de repente. Holmes recuou; eu, instintivamente, lancei a mão para ampará-la — e vi o reflexo de minha mão mover-se antes de mim.Um segundo depois, a vela rolou e se apagou.
Um silêncio gelado encheu o salão.O espelho, agora escuro, parecia conter um brilho interno — como se uma brasa respirasse por dentro.
Holmes se curvou, o olhar fixo.
— Está ouvindo? — perguntou.
Eu escutava apenas o som do próprio coração. Mas então, fraco, vindo de algum ponto dentro do vidro, ouvi o tilintar de algo metálico.Um som de chaves.
— O que é isso? — murmurei.
— O som do porão — disse Holmes. — O espelho está repetindo... ou antecipando.E se for o segundo, Henry está lá embaixo.
Corremos.Descemos as escadas e, à medida que nos aproximávamos do porão, o som das chaves tornou-se mais claro.Holmes abriu a porta de uma vez, e a lanterna iluminou o mordomo ajoelhado diante do espelho quebrado, o mesmo que encontráramos no dia anterior.Ele murmurava algo — um mantra ou oração.
— Henry! — gritou Holmes. — Largue isso!
O homem virou-se devagar, os olhos vidrados, a boca manchada de sangue.Em sua mão, uma lasca de vidro, a mesma que Holmes havia recolhido antes.
— Ele pediu — sussurrou o mordomo. — Disse que precisava... de reflexo novo.
Holmes avançou e arrancou-lhe o vidro das mãos.Henry desabou no chão, convulsionando.O espelho rachado no porão começou a vibrar — e refletiu algo que não estava ali: nós mesmos, de pé, observando nossos próprios corpos caídos.
Holmes manteve o sangue-frio.— Watson, observe o tempo do reflexo. Ele não é simultâneo — está adiantado em alguns segundos.Isso explica tudo.
— Tudo, Holmes? Isto não explica nada!
— Ao contrário. — Ele acendeu o lampião novamente, ofegante. — O espelho mostra o futuro imediato.Foi assim que o marido da Lady previu sua própria morte.Foi assim que Eleanor soube que viríamos.
Henry gemeu.Holmes se ajoelhou e examinou o pescoço do homem.— Sem ferimentos fatais. Desmaiou por perda de sangue. O corte na língua é autoinfligido.Ele tenta reproduzir o ritual.
Olhou para mim, e vi nos olhos dele algo raro: inquietação genuína.
— Watson, nunca repita o que verá a seguir.
Holmes segurou o espelho rachado com ambas as mãos e o ergueu à altura dos olhos.A luz do lampião fez as fissuras brilharem.Por um instante, o reflexo mostrou apenas seu rosto — depois, atrás dele, surgiu uma figura que era e não era Holmes.Mais jovem.Vestido diferente.Com a mesma cicatriz que ele ainda não tinha.
— Meu Deus... — murmurei. — Isso é o senhor?
Holmes não respondeu. O reflexo levantou o dedo indicador e traçou algo na superfície do vidro, de dentro para fora.Quando recuou, lemos a palavra formada no mercúrio:
“VOLTE.”
Holmes respirou fundo, e pela primeira vez em todos os anos que o acompanhei, vi seu pulso tremer.
— O reflexo... — disse ele, quase para si mesmo — ...acabou de me dar uma ordem.
Antes que pudesse abaixar o espelho, um vento frio atravessou o porão, apagando o lampião.No escuro, ouvimos a voz de uma criança:
“Volte ao quarto, Sr. Holmes. O sangue ainda está quente.”
Holmes deixou o espelho cair — e o som do estilhaçar pareceu vir não do chão, mas de dentro das nossas cabeças.
Subimos as escadas como quem foge de um incêndio invisível. O som de nossos passos ecoava de maneira errada — um compasso adiantado, como se um segundo par de pés nos acompanhasse a partir do futuro.Holmes mantinha a lanterna firme, o olhar imóvel à frente, e eu o seguia com a respiração curta, sentindo a casa pulsar.
Quando empurramos a porta do quarto da Lady, o ar era denso e frio.O espelho principal — o mesmo que havíamos coberto — estava agora descoberto, e o lençol caído a seus pés movia-se lentamente, como se alguém o tivesse acabado de soltar.
A superfície do vidro brilhava em tons de chumbo.Mas o que ele mostrava não era o nosso reflexo.
Era Holmes, caído no chão, o rosto virado para o lado, o sangue formando uma mancha escura sob o pescoço.E eu, Watson, ajoelhado sobre ele dentro do reflexo, gritando por ajuda.
— Santo Deus... — murmurei, recuando. — Isso é... o futuro?
Holmes se aproximou do espelho com uma calma que era quase desumana.
— Ou uma possibilidade, — disse. — E possibilidades, Watson, são apenas verdades que ainda não decidiram acontecer.
A imagem dentro do espelho se moveu.O “Holmes morto” abriu os olhos — não os olhos de um cadáver, mas os de alguém que observa de volta.E o “Watson do reflexo” congelou, fitando-me.Por um instante, eu e ele — ou aquilo que me imitava — respiramos juntos.
Holmes ergueu a bengala.
— Não, — eu o adverti, — não toque!— Se há duas realidades, quero saber qual delas é minha, — respondeu.
Golpeou o espelho com força.O som que se seguiu não foi o estilhaçar do vidro, mas um grito abafado — o meu próprio grito, vindo do outro lado.
— Holmes! — exclamei. — Está ouvindo? Isso veio de dentro!
Ele parou, olhando-me fixamente.— Então é verdade. — sussurrou. — O espelho não mostra o futuro. Mostra a escolha que ainda não fizemos.
A rachadura no vidro se alargou, desenhando linhas como veias incandescentes.Dessa vez, o reflexo começou a mudar por conta própria:no chão, onde estava o corpo de Holmes, algo começou a se levantar.Um segundo Holmes.Mas havia algo errado — o rosto era o mesmo, mas os olhos... eram meus.
Dei um passo atrás.O reflexo sorriu.
— Não olhe! — ordenou Holmes, sem virar o rosto. — Ele está tentando... sincronizar.
— Sincronizar?
— Tornar os dois lados idênticos. E quando forem idênticos, um dos dois deixará de existir.
Nesse instante, Lady Blackwood entrou, pálida como cera.
— O que estão fazendo?! O espelho... está chamando meu nome outra vez!
— Saia do quarto! — gritou Holmes. — E leve a vela!
Mas era tarde demais.A chama vacilou, e o espelho explodiu em fragmentos dourados — sem ruído, sem vento, apenas uma pressão muda que nos lançou contra a parede.
Quando recobrei os sentidos, o quarto estava em silêncio.O espelho continuava inteiro, inexplicavelmente.Mas o reflexo era outro: eu via apenas Holmes, parado no meio do quarto, e nenhum reflexo de mim.
— Holmes... — chamei, a voz rouca. — Onde estou?
Ele virou-se devagar.— Está atrás de mim, Watson. — E havia medo no tom — coisa que nunca ouvi em sua voz.— Não, estou aqui, Holmes.— Não, meu caro. — Ele deu um passo para trás, e eu vi: no reflexo, o Watson estava preso, batendo contra o vidro.
Corri até o espelho e toquei a superfície. Fria. Sólida.Mas do outro lado, a imagem repetia cada movimento com atraso — e os lábios do reflexo formavam palavras que não produziam som.
Holmes observava, fascinado e horrorizado ao mesmo tempo.
— O espelho o escolheu, Watson. Precisava de um novo eco.
— Isso é loucura! Tire-me daqui!
Holmes encostou a palma no vidro.O reflexo respondeu com exatidão.Por um momento, as duas imagens — a minha e a dele — pareceram fundir-se.E então ouvi, de dentro do espelho, a voz da menina Eleanor:
“Ele precisa decidir... um de vocês deve ficar.”
Holmes me olhou.E pela primeira vez, o grande detetive hesitou.